Bonobando ocupa Arena

A atriz e jornalista Tracy Segal escreveu artigo-resenha para o Favela 247 descrevendo sua visita ao ensaio da peça de teatro “Bonobando na Dicró: Apresentação Residência Artística”, projeto coletivo que uniu instituições como o Teatro da Laje e o Observatório de Favelas, e artistas das diferentes camadas sociais e regiões da cidade. “A sofisticação da arte da elite com a fúria da arte da favela, atravessando as linhas dessa cidade partida. Poéticas estruturais onde a favela é cidade e reclama seu lugar”, disse Tracy, que conclui: “A peça é certamente política, sem ser panfletária”. A peça estará em cartaz na Arena Dicró, na Penha, nos dias 18, 20 e 21 deste mês
No meio de um parque uma Arena cultural, a Arena Dicró no bairro da Penha, próximo a várias favelas, um equipamento da prefeitura novo em folha. Em março deste ano o grupo Teatro da Laje, em parceria com o Observatório de Favelas (gestor da Arena Dicró), deram inicio a uma residência artística, projeto contemplado pela lei de fomento onde selecionaram 12 atores de diversos territórios para esta empreitada.
Deste encontro surgiu o Bonobando de Artistas Autônomos, que junto com os integrante do Teatro da Laje apresentam nos dias 18, 20 e 21/12 as 19h o resultado da residência, uma demonstração publica do processo.
Fui a convite de uma das diretoras deste trabalho, a Adriana Schneider, assistir ao ensaio “Nosso objetivo era produzir uma obra potente e não criar uma ONG onde o resultado é somente a inserção social ou algo assim, mas criar uma experiência artística, onde quem assistisse não fosse condescendente com a obra como muitas vezes acontece com o resultado de trabalhos sociais”, disse Adriana.
Assisti ao ensaio, ainda despido de figurinos, luz e apetrechos. O espetáculo é itinerante pela Arena, o coletivo se apropriou dos espaços além do palco como se apropriaram dos territórios da cidade costurando as diferenças sociais dentro do próprio grupo. Na convivência entre os atores surgiram farpas, resultado da mistura de classes: “Nossa maior diferença é social, não é de cor ou gênero. É também. Mas a social é mais forte”, conta um dos atores, morador da cidade de Deus que teve vários arranca-rabos com uma colega que mora num bairro mais classe média.
O trabalho durou dez meses com ensaios de terça a sábado. Além dos diretores artísticos Adriana Schneider, Lucas Oradovschi, Mariana Mordente, Paula Maracajá e Verissimo Junior (que faz a supervisão geral), contou com os profissionais cujos estudos sobre performance, dança, criação de cenas, práticas teatrais, experimentação de jogos, música e canto se integraram para a formação de atores-criadores. Oficinas de palhaço, de bufão, de ator-narrador, ministradas por Sergio Machado, João Carlos Artigos e Julio Adrião.
Fui atropelada por cenas corais com jovens em sua máxima potência num cruzamento da agressividade do funk com a poesia do samba, e fui carregada para visões impactantes, uma ferida aberta onde a normatização da dor e da morte pinta um quadro aliviado pelo humor da bufonaria.
O incomodo do riso surge com o estranho explicitado, com a singularidade de que nesse caso o absurdo é o retrato da realidade. Mortes de crianças, estupro, medo. A ancestralidade invade a cena com historias de negros expulsos desde a remoção da praia do Pinto em sua peregrinação rumo as entranhas do Rio de Janeiro, onde as guerras entre polícia e bandido soam no bang-bang urbano dos MCs. Também compõem a obra uma série de solos construídas das poéticas que surgiram de cada um dos atores, como afirma Adriana.
Essa dramaturgia foi construída no processo vertido das experiências desse jovens, de suas próprias subjetividades, com humor e poesia. A fronteira entre o real e a ficção, tão explorada pela arte contemporânea, encontra sua potência nesses nichos massacrados. Só há grito onde há dor.
A sofisticação da arte da elite com a fúria da arte da favela, atravessando as linhas dessa cidade partida. Poéticas estruturais onde a favela é cidade e reclama seu lugar.
Faz uns dois anos que ouvi o Marcelo Yuka afirmar numa palestra que a verdadeira potência da arte se encontrava na favela, o que me causou desconforto à época, sendo eu representante da classe média culta, considerei o discurso preconceituoso, uma supervalorização da pobreza. Revejo hoje meus conceitos, sucumbi à força deste espetáculo pelo avesso do espelho, a cena estampa uma realidade crua, linda, que brotou desses jovens. Jovens pretos, brancos, com lindos cabelos espetados, orgulhosos de sua pele e de sua arte.
Essa experiência é inédita como ocupação integral de um equipamento público. A idéia é que isso vire um modelo de ocupação, segundo disse Adriana. Isabela Souza, do Observatório das Favelas, conta que esse projeto tem o objetivo de intervir nos processos de instituição de políticas culturais, em politicas públicas. Os atores deste processo ganham um salário de R$900,00, e além dos ensaios tiveram encontros semanais para discutir temas que levaram a uma formação artística e politica: “a relação com a política é um processo de negociação contínua”, disse Isabela.
As tensões que deram origem à narrativa fazem parte do cotidiano. Numa conversa com os integrantes do coletivo contaram-me sobre suas experiências com o entorno, onde eram abordados por policiais (existe uma sede da UPP ao lado da Arena). Achacados, os atores pediram à produção um crachá de identificação para se proteger. O preconceito sofrido por um dos atores por ser o de pele mais preta é constante.
Ao serem perguntados sobre a convivência com a UPP todos são categóricos ao demonstrar sua insatisfação. O medo perdura com policiais desrespeitosos. Alguns chegam a afirmar que antes, sob comando do tráfico, ao menos a relação era mais humana. Os traficantes eram figuras que cresceram na comunidade, agora os policiais são forasteiros que os maltratam, sem nenhuma identificação.
A peça é certamente política, sem ser panfletária. É a arte como seu discurso poético, sua arma de mais longo alcance.
Evoé Bonobando, vida longa!
Serviço
Bonobando na Dicró: Apresentação Residência Artística
Datas: 18, 20 e 21/12 (quinta, sábado e domingo)
Horário: 19 horas
Local: Arena Carioca Dicró
Endereço: Av. Brás de Pina, s/n, próxima à UPA da Penha e ao Hospital Getúlio Vargas (entrada pela Rua Flora Lobo)
Entrada gratuita
Ficha técnica
Com: Carol Pitzer, Daniela Joyce, Hugo Bernardo, Igor da Silva, Járdila Batista, Karla
Suarez, Lívia Laso, Marcelo Magano, Marlon Procópio, Patrick Sonata, Thiago Rosa e Vanessa Rocha.
Supervisão: Verissimo Junior
Direção Artística: Adriana Schneider, Lucas Oradovschi, Mariana Mordente, Paula
Maracajá, Verissimo Junior
Preparação Vocal: Ronald Valle Vídeo Instalação: Lucas Canavarro
Iluminação: Apolo de Souza
Produção: Carol Meirelles, Jorge Freire e Michele Machado
Produção executiva: Isabela Souza e Elionalva Sousa e Silva